Nova York (FSP,07/04/83) - Nova York não era ainda tão industrial. Era comercial, o verdadeiro paraíso da iniciativa privada (se há iniciativa privada em capitalismo é, digamos, em restaurantes). Os brancos, anglo-saxônicos protestantes (wasps), dominavam a cultura do país. Moravam, no início do século, na avenida Madison e Quinta. Hoje, são ambas entrepostos comerciais. Os ricos se mudaram para a Park Avenue, marmórea, sem vida e que desemboca apropriadamente numa favela. Os autores disso são Nelson Rockefeller, que governou 16 anos o Estado, e Robert Moses, o planejador dele, que destruíram a antiga Nova York e construíram a atual, em que há "ricos" e miseráveis. Nelson queria fazer de Nova York o centro corporacional do mundo. Fez, via Moses, arrasar as zonas, dos imigrantes irlandeses, judeus, italianos, etc. Onde plantou monstruosidades como os maiores prédios do mundo, do Word Trade Center, maiores que o Empire State, nada sobrevive em torno. Bairros onde você anda com uma mão atrás e outra na frente, como o Bronx, o Lower East Side, já foram pacíficas e folclóricas comunidades judaicas e italianas (os imigrantes mais trabalhadores). Hoje são guetos negros e hispânicos. A política de aluguéis, da valorização de zonas, provocou uma corrida para cima de preços, que obrigou a classe média a se proletarizar ou a fugir da cidade (a população decaiu em quase dois milhões numa década, a de 1970). Não deu certo. Os "inaceitáveis", negros, hispânicos, etc. Ocuparam essas regiões e lá apodrecem em esqualor e miséria. As corporações fogem (sic), não vêm para a cidade, e isto porque os impostos são altíssimos, porque o funcionário decisivo numa corporação, o "jovem quadro", não quer, não agüenta ficar aqui, nos 30 mil dólares ao ano dele, os aluguéis são caríssimos e as escolas públicas, de graça, são perigosas, porque a meninada de faca dos guetos as freqüenta... A cidade perdeu o caráter. Em 1954, peguei resquícios. Mas hoje a Quinta Avenida é internacional. O freqüentador de metrô em 1954 era o paulista de 1948, que conheci, bem vestido (não rico), trabalhador (superbairrista, o que o nova-iorquino não é. Para o nova-iorquino, como o parisiense, o resto do mundo não existe. Logo, para que xingar?), satisfeito com as próprias esperanças. Hoje, no metrô, assusta. É puro Terceiro Mundo. Não pense que, sendo charmoso para o moleque, ele não te esfaqueia, ou você dizendo que é de esquerda, ele não ídem. Os furiosos são seres humanos apenas por marcas de identificação física. Há um estupro de 40 em 40 segundos, um assalto de minuto em minuto, um assassinato de três em três horas. E são quase sempre nas zonas pobres. O porteiro é uma personalidade-chave. Meu prédio tem cinco (não é de luxo, em absoluto). Sem porteiro, há guerra todo dia... Vai piorar. Nova York é o microcosmo do mundo. Digo, o industrial. Os investimentos hoje são na área de serviços e alta tecnologia. Quem não for mão-de-obra altamente especializada não tem chance de sobreviver, exceto como servente, e não há tanto lugar assim de servente. Marx falou disso. Mas Engels disse melhor: "O mundo capitalista chegará a um ponto de contradição entre o desenvolvimento das forças de produção e a incapacidade institucional do capitalismo de prover, em face da anarquia competitiva do sistema, que o mundo irá para o socialismo ou a barbárie." Engels achava que iria para o socialismo. Bem... O comércio, é verdade, revive. E sábado conto da luta de Nova York para se humanizar. Mas, amigo leitor, antes de pensar que aqui é Meca ou a cidade de Ozoz, lê com cuidado estas maltraçadas...
Nova York (FSP,21/06/90) - Onde estão as elites? Morreram? Estão entrincheiradas em condomínios suíços? Cláudio Abramo, quando lhe perguntei onde estavam os paulistas educados que eu conhecia dos anos 50 respondeu que estavam entrincheirados em suas casas esperando, armados, a invasão dos baianos. Camus conta em "Cadernos de Viagem" que chegou ao Rio e foi recebido num apartamento do Flamengo (dos mais chiques do Rio) onde as pessoas falavam perfeitamente francês e pareciam conhecer mais Proust do que ele, Camus. Não consigo imaginar essa cena hoje em dia. Fui tomar um "brunch" com uns amigos domingo, porque estou mudando de casa, uma experiência infernal, ainda que para perto de onde moro, e como era no Village, resolvemos dar uma volta para eu lhes mostrar onde morei nos 70 perto da Universidade Nova York. Cruzamos Washington Square, a praça encabeçada por uma ridícula imitação do Arco do Triunfo francês, que já é, no original, do maior mau gosto, só sendo superado pela torre Eiffel. Mas não havia ninguém, juro, da nossa cor, na praça, e a aparência bandido-esculacho era cultivada e exibida por todos os presentes. Nada aconteceu de assustador e ninguém aparentemente nos deu pelota. Mas me pergunto: é gente dali? Não pode ser, porque os aluguéis do Washington Square, são todos da Universidade Nova York, sim, mas as adjacências, as ruas transversais à praça, não "conjuminam" com a aparência daquelas pessoas. Devem morar nos confins e, aos domingos, se postam na terra dos brancos, na floresta de Sherwood, que lhes era vedada de que tomam transitoriamente conta, mas essa "transitoriedade" torna um risco alguém limpo, apresentável e, deus me perdoe, com dinheiro, passear por esses lugares, assim, para todos os efeitos o pátio dos milagres vai tomando conta da cidade. Mudar ou morrer - O cavalo já foi um erro, disse Thomas Jefferson, se referindo à necessidade profunda de ficarmos próximos ao que nos é familiar e não desgarrar para lá e para acolá. É como me sinto precisamente. E como sinto minha inatualidade na era em que todo mundo tem um carango, Waaal, Roberto Carlos, afinal, faz parte da cultura; todo mundo, me parece, quer saçaricar, ou pelo menos mudar de vizinhança. Quando na prisão e hospital, com grandes semelhanças, também sinto ânsias de "judeu errante", mas é só. Mas conversa vai conversa vem, hoje me mudei para o que é pelos amigos, de minha cobertura. O apartamento tem uma varandinha micha, mas ao menos é alto e Sartre notou que Nova York é uma cidade que se deve ver de cima para não se sentir acachapado pela arquitetura cubista. Ainda nem fui ver pois sinto uma forte angústia com a simples idéia de mudança. Meu apartamento se desfazendo é como se fosse eu me decompondo, sentimentos que só os gatos parecem partilhar na totalidade.
Nova York (FSP,29/09/90) - Há um dia e meio por exemplo buzinas trombeteiam na Segunda Avenida, onde moro. E moro muito alto, mas, agora, mesmo, estou ouvindo esses histéricos. E pior as sirenes da polícia e ambulância, principalmente à noite, quando o tráfego reflui um pouco, e cortam o nosso desejado e abençoado silêncio com seus uivos. Um dia vou me atirar da janela e levar alguns desses boçais comigo. Estou convencido que é puro exibicionismo, o "show off" falado e não necessidade. Boa manchete: "Brasileiro enlouquece e abre fogo". Mas a chibata. Não é porque fosse um crioulo. Seu semblante nem era agressivo. Boa palavra, semblante. O tom era nova-iorquino, mas, claro, tudo depende... Quando se podia ir ao Village, antes de virar uma das maiores bocas de fumo da cidade, o Coach House, na era pré-novos-ricos, apelidasse caridosamente de yuppie, o serviço era todo de crioulos e impecável. Estilo velha plantação do sul dos EUA. Claro, estavam representando escravos. Era muito chique o restaurante. Mas nem por isso deixa de ser espantoso um crioulo no Palm Court, e, ainda por cima, grosseiro. No início do século, quando o Plaza foi construído, imitando a arquitetura do reino inglês de Edward 7 (1902-1910), o Palm, cheio de palmeiras nanicas, não sei se artificiais, era o ponto de encontro das debutantes e seus galantes. E às tardes, as senhoras mais elegantes tomavam um chá lá, como se fazia, e faz, com cuidado, no Ritz de Londres, onde Rebbeca West teve um ataque de histeria contra Tony West, o filho dela, com H.G, Welles, e teve de ser carregada, manietada, pelos garçons, espumando de ódio. Mas isso é pitoresco, o crioulo, não. Há muito tempo, é verdade, "ninguém" mais vai ao Plaza. Desde 1966? Foi quando Truman Capote deu um baile convidando toda a gente ilustre da época, em homenagem a Katherine Graham, "publisher" do "Washington Post". O jornalista famoso comentou baixinho comigo que decaem muito os serviços neste país. No mundo em geral, eu diria. O Plaza, deformado que está, ainda é muito bonito. Cary Grant freqüentava um bar e restaurante do Plaza, o Oak Room, aposento de carvalho, se é preciso tradução, porque o restaurante é todo revestido de carvalho. Chiquérrimo, quando estive aqui em 1954, Betty Friedan entrou no bar e pediu um uísque. O garçom, que conheci pessoalmente, serviu, apavorado. Antes fui á ótica Cohen buscar umas lentes. Não estavam prontas. Nada está pronto, em Nova-Iorque, no dia combinado. Iam entregar uma mobília aqui, segundo telefonaram, pela manhã. São três da tarde e não chegou. O colapso dos serviços...
Nova York (OESP,03/02/91) - Janto no Sparks, a mais famosa casa se carnes de Nova York, onde se pode beber os mais caros Margaux a preço de banana, porque os donos ,os irmãos Cetta, são importadores de vinho e revendem à clientela abaixo do custo habitual do varejo. Muitas mesas só com homens, gente entre 30 e 40 anos, os chamados thirty-somenthing, fazendo um barulho dos diabos. É o excesso de energia dos americanos. Têm de despejar de alguma forma. É por isso, em última análise, que vão à guerra e tanta gente se mata aqui. Excesso de energia.
Nova York (OESP,07/02/91) -. Vou à Saks, numa liquidação. Incrível. Coisas de US$ 1.600 por UR$ 500. Liquidação aqui é para valer. Mas olho mais do que compro. As mulheres derrubam a loja, viram tudo de cabeça para baixo, experimentando doidamente. Ninguém reclama. É o esperado. Homem algum tem peito de fazer a liça metade. Vejo uma senhora de mais de 70, em vários casacos, Perry Ellis, Anne Klein, está tudo sendo torrado, minha amiga. Me admira que alguém dessa idade ainda tenha vaidade, mas por que não? A vida é um eterno presente, talvez.
Nova York (OESP,16/02/92) - Dois casais no feriadão de 4 de julho, em Fire Island, uma ilha paradisíaca perto de Nova York, em que não é permitido o monóxido de carbono de automóveis. Como em Paquetá. Sally é casada com Sam e herdou uma casa do irmão, David, que morreu de Aids. Fire Island é dos maiores centros de bichice dos EUA. Mas só em regiões como Pines, me parece, esqueci dos nomes, há muito não vou lá. Outras partes da ilha são habitadas por gente normal. Agora, Sally está no centro da viadagem por causa da herança. Ela e Sam convidaram um casal, John e Chloe. John teve e tem intermitentemente um caso com Sally, que está grávida, mas esconde do marido, porque, todas as outras vezes que engravidou, perdeu a criança. Choe é atriz, uma barata tonta amável, fala sem parar e é irmã de Sam, John é de classe social superior aos demais, porque é diretor de admissões de uma escola de elite e usa palavras difíceis para Sam como fecundo (em inglês, fecundo). John está com câncer no esôfago, inoperável. Nas casas em volta se ouve de Mozart e Shubert e Jussi Bjoerling cantando O Paraíso, e os viados riem muito e parecem se divertir bastante, se bem que McNally começa com a imagem poética de um viado que se atira no mar e vai nadando oceano adentro acenando de despedida para Sally, que no meio da peça revê o nadador, morto inchado de afogamento.
Nova York (OESP,02/04/92) - Na página 46, coluna 2, do New York Review of Books, Jason Epstein, vice-presidente e diretor editorial da Random House, merece entrar no Livro Guinness dos Recordes, pelo número de fatos desabonadores que alinha sobre Nova York, a sua e a minha cidade. Com um orçamento de US$ 28 bilhões, um déficit anual operacional de US$ 333 milhões, mas que em realidade, excluída a "contabilidade criadora", vai a US$ 7 bilhões, se Nova York aumentar os impostos atingirá as 200 mil famílias que já arcam com mais de 50% de todos os impostos. Há cerca de 1 milhão de pessoas em Welfare. Dos 800 mil viciados em drogas, cerca de uns 200 mil testaram positivo para HIV. O débito total de Nova York, segundo Epstein, é US$ 22,5 bilhões ( equivalente à dívida externa de um país como Israel...). Temos de pagar US$ 2,5 bilhões de juros, em 1992, ou seja, US$ 300 por per capita. Manter alguém na cadeia em Nova York custa à cidade US$ 58 mil ao ano. Epstein nota que nos anos 80 saíram da cidade 540 mil brancos... Entraram 520 mil negros e hispânicos e 250 mil asiáticos. Os últimos, barra limpa. Devemos agradecer aos céus que tenham imigrado, porque trabalham, abrem negócios, contribuem para a prosperidade da cidade. O problema com os hispânicos e negros é que, de um modo geral, só estão aptos ao trabalho mais servil, porque a economia moderna remunera o especialista, é no jargão idiota dos economistas, capital-intensive, e não labour-intensive, ou seja, não requer grandes quantidades de mão-de-obra. O problema aqui não é só de Nova York, mas de todo o Primeiro Mundo. Como dizem, a máquina industrial terminou com o trabalho braçal. O computador, com o trabalho intelectual mediano. Nova York é, como Epstein escreve, uma complexa mistura de opulência e de miséria. No final do artigo ele cita que a corretora Goldman e Sachs ganhou US$ 1 bilhão, em 1991. Ganha-se muito dinheiro aqui. Os grandes bancos manipulam cerca de US$ 1 trilhão em depósitos.
Nova York (OESP,18/06/92) - A cara de mau-caráter de Paul Simon, no Elios, um restaurante italiano na moda, que não fede e nem cheira. Sem gosto, a comida, o que é comum aqui, o recorde pertencendo ao chinês que só se entra sendo famoso ou dando US$ 100 ao maître, Chow, que quer dizer "rango", em que a comida parece de papelão e os garçons, de dois ou até três e quatro sexos, nos olham com desdém representado, porque parece que novos-ricos gostam de ser maltratados. Grande e estranho é o mundo. Mulheres lindas de morrer em torno do anão Simon. Woody Allen, presente, com Mia e comitiva. Comem silenciosamente e não olham para ninguém e ninguém se aproxima da mesa. Devem dar 32 mastigadas em cada bocado, como manda o figurino. Estranho que alguém tão privado como Woody se diz insista em ir a lugares notórios.
Nova York (Globo,02/07/92) - O Circo - Vou almoçar no Le Cirque. Não tive tempo de encomendar carruagem, logo pego um táxi vulgar. A primavera vai embora, resistiu até fim de junho, as noites ainda são frescas, depois será aquela meleira insuportável que coincide com a convenção democrata em Nova York, que ungirá Bill Clinton, do nível de Cidinha Campos, Mogadon Suplicy, da nossa prata da casa... O mundo caminha a passos largos para o brejo. Fui para botar defeito em Le Cirque. É dos três restaurantes da moda, como o Cipriani, em que já se comeu bem e hoje é uma birosca, e o Mortimer, onde alguns ingleses e pseudo-ingleses (é o que chamam de "Eurolixo", "Eurotrash) posam de aristocratas. A comida é também incomível. Mas moda não significa qualidade e conforto. Comi anos atrás no Gavroche de Londres. Excelente. Tanto falaram que virou pouso de turistas, de americanos falando alto e japoneses em propel mudo e sinistro. Virou frege. Tem até correntes de ar para que peguemos pneumonia. Há flores demais no Le Cirque, me parece, e a louça é um tanto "cheguei", apesar de feita especialmente para o restaurante. Mas não é possível reclamar do resto. Do presunto de Parma, ao Red Snapper, ao sorbet, ao champanhe, ao serviço, tudo perfeito. A alguns metros de mim, uma reprodução miraculosa de Barbara Bates, apresentava como coitadinha e Anne Baxter, no final de "All about Eve". Nunca deu para nada em cinema, mas deve ter dado muito prazer aos felizardos a quem amou. Noutra mesa, Antônia, filha de Carmen e Tony Mayrink Veiga, uma beleza de outro tipo, mediterrânea, com cabelões belos de Dalila. Parece ser muito simpática, tem mãos deliciosas e pés também, pelo que se pode ver dos ditos-cujos entre cadeiras e mesas na frente. Mas de salto baixo para não humilhar seu companheiro, baixote, pré-careca, um óbvio frog, francês, carrancudo, não fazendo jus à companhia esfuziante. É um almoço de business, evidentemente. Ela pagou. Ao lado de Antônia, Dewi Sukarno, a viúva de Sukarno, que inventou a Indonésia e foi derrubado em 1965 por um golpe de um general chamado Suharto, que mandou matar cerca de 600 mil pessoas e prendeu milhões. Dewi resplandece de ciência médica. Seus olhos foram abertos, desorientalizando um pouco suas feições, e sua pele foi operada, tratada e embalsamada por cirurgiões de primeiro time. Não se sabe bem se ela era uma aeromoça com um je-ne-sais-quois, que prendeu o priápico Sukarno, que fretava aviões cheios de aeromoças que formavam um harém aéreo, ou se Dewi pertence a alguma geração passada de "grandes horizontais", que nos deram a duquesa de Windsor e Imelda Marcos, entre outras personalidades. Ela parece uma mulher interessante, de seus 40 anos... Sukarno foi derrubado há 27 anos. Dewi teria 13 anos? Em se tratando de Sukarno não é impossível. "Barbara Bates" se vai, com seu grupo, Antônia com seu frog, e saímos nós pela Madison Avenue. Olhamos a sala privada em que houve o jantar de Zélia, de carruagem, com Cabral, LOrangerie. Sem caráter algum. (...) Amor Perfeito - É o nome da loja com que deparamos na Madison 698. Meu amigo, brasileiro, tem erisipela ao contato com patrícios, mas convenço-o a essa "aventura". "Amor perfeito" há também no Brasil, me informam, de trajes de dormir para mulher. Somos muito bem recebidos como possíveis clientes por senhoras brasileiras, e sem que eu entenda lufas de camisolas etc., o lugar, comum, nenhum chique especial, parece próspero. Essa é a zona mais quente de comércio de Nova York. As melhores lojas do mundo estão aqui, entre a Madison 60 e a Madison 80, e "Amor perfeito" fincou uma bandeira nossa na região. Waaal, bom proveito. Já pensei em usar cinta, como tenor, quando a barriga estufa, mas é ridículo demais de imaginar. (...) Morroll perfeito - Abaixo vamos ao Morrell e Madison 535. Se você quer comprar um vinho muito bom e não tem na Morrell é provável que o vinho não seja tão bom assim. É o fino, Morrell. Examinamos famílias mil de vinho, Puligny, Montrachet, Rotschild, combinações disso e daquilo. Não sou bebedor expert. Uma lamentável lacuna cultural. Ainda vivi para apreciar um bom champanhe, uma ou duas taças na refeição melhoram a vida, a comida e nossos semelhantes, mas sou da escola William Faulkner de álcool. Lembro dele bêbado, se matando de beber, falando ao telefone, e a filha lhe implorando que parasse de beber, ao que respondeu: "Shakespeare não tinha filha". Beber muito sem cair era o objetivo. Sinto falta. Parei, mas gostava. Não gostava de fumar, que parei também. No quarto Black Label está-se no céu. (...) Reinaugurado o Museu Guggenheim, meu favorito, com um anexo de dez andares. Sempre achei o Guggenheim o prédio mais bonito da arquitetura moderna deste país. Repetiram o desenho original de Frank Lloyd Wright (tio de Anne Baxter) num anexo de dez andares. E, agora, se pode ver melhor a extraordinária cúpula do Guggenheim original. Johm Richardson, o biógrafo definitivo de Picasso, tem a mesma opinião sobre o prédio, que acha, no entanto, um monumento à megalomania de Lloyd Wright e não serve para museu. Peço vênia para discordar. Vejo "La Repasseuse" de Picasso no Guggenheim com mais prazer do que qualquer quadro favorito no Metropolitan e no Museu de Arte Moderna.
Nova York (Globo,12/07/92) - Quando fui ver "Jakes Women", de Neil Simon, na Broadway, contra meus hábitos, resolvi dar uma volta na "Calcutá", que é o lado oeste da cidade de Manhattan em Nova York. Como é aquele verso de Thiago de Mello, "faz escuro mas eu corro", vontade não me faltou. Imagino que muitos turistas pensem que "isso" é Nova York, a babel de línguas, de tipos feios como a necessidade, uma sujeira que às vezes nos é esfregada na cara. Waaal. Como numa cafeteria. Infame. As batatas fritas estão na quarta ou quinta reencarnação, o pão é aceitável, mas a penosa, com alho, apesar de eletrocutada ad infinitum pelo microondas, está morta, quite dead, mortinha da Silva. Há algumas compensações, a Colony onde você provavelmente acha aquele disco, ou fita, ou CD, de Galli-Curci, enlouquecendo em "Lucia de Lamemoor". Um velho amigo, Brutos Pedreira, viu a última "La Boèhme", de Cláudia Muzio, no Rio. Não dava as notas mais altas. Estava morrendo de leucemia. O Municipal, de gala, chorava da platéia à torrinha. Isso existiu ou é um sonho ou uma ilusão? Em frente da Colony, um vasto depósito de cassetes. Um oriental com olhar "sutil", porque todo oriental tem "olhar sutil", responde a todas as minhas perguntas, expert que é. Levo "Nigth and day", a pseudobiografia de Cole Porter, com Cary Grant e Alexis Smith. De parecido com a vida de Cole, o insuperável Cole, tem apenas que ele se casou com uma mulher bonita como Alexis Smith. Mas que tinha horror a sexo. Foi violentada brutalmente na adolescência. Ela e Cole presidiram um dos salões mais sofisticados de Nova York. Esteve no apartamento deles, depois de mortos, na Torre (anexo) do Waldorf Astoria, 12 aposentos, decorados por Billy Baldwyn. Do escambau. Ela dava a ele uma cigarreira de diamantes a todo novo show seu. Morreu e ele ficou tristíssimo. Nos últimos tempos, recebia muita gente mas não dizia palavras. As pessoas falavam para entretê-lo, afinal pagando minimamente a dívida que tinham com ele, que nos divertiu como nenhum compositor popular. Um cavalo caiu sobre Cole nos anos 30, ele sofreu hediondamente, fez 36 operações para salvar uma perna, que se foi, afinal. A vida não faz graça com ninguém.
Nova York (Globo,23/07/92) - Nova York parecia o Rio, coitadinha. Se engalanou toda para receber quase cinco mil convencionais, cerca de 15 mil jornalistas e uns 20 mil perus de fora. Gastou cerca de US$ 20 milhões. O "New York Times", o "Wall Street Journal" e sei-lá-mais-quem deram brindes a quem entrava na convenção, no Madison Square Garden. Fui lá uma vez fazer uma passagem, como se diz na televisão. Há séculos não ia. Chato. Os romanos sabiam fazer circo melhor, alimentando leões com certas pessoas indesejáveis. Alguns restaurantes deram "preço fixo" de UR$ 19,95. Pechincha, aqui. Encheram, leio, porque os que costumo ir não ofereceram. Sumiram os desabrigados e as prostitutas de letreiro, aquelas que pintadíssimas, com salto altíssimo, dizem ao ver a polícia "Adesfalsa, Iracema." Há quem diga que essa gente foi presa ou simplesmente persuadida. A vida dos miseráveis nunca foi escrita, realmente. Os convencionais odeiam Nova York. Americanos odeiam Nova York. Invejam e têm medo, medo de violência, mas medo principalmente na arrogância financeira e cultural da cidade. Assim como Paris foi a capital do século XIX, Nova York é a do século XX. A civilização americana, o que resta dela, está aqui. Nada no país é parecido sequer com a cidade, ainda que seu lado fleuve às vezes seja intolerável. Não ouvi uma palavra sobre a convenção nos lugares em que circulo. Nova York deglutiu, indiferente, os democratas. É sempre a única estrela de si própria.
Nova York (OESP,23/07/92) - Vou levar uma amigo meu ao Loews na Lexington, aqui perto, e volto andando e literalmente tropeçando em mendigos, que me parecem perfeitamente aptos a trabalhar. Sinto vontade de dizer a eles como São Paulo que quem não trabalha não come. Quando entro na minha rua, uma mulher me cumprimenta e eu respondo, sei lá se a conheço, mas é uma profissional e começa a listar os serviços que poderia me prestar. Sortidos... Agradeço penhorado. Nos anos 70 a Lexington era habitada por profissionais que, de repente, sumiram. Tudo termina voltando?
Nova York (Globo,17/09/92) - É a mais barata das capitais mundiais. Amigos meus que moram na Europa ao verem os preços daqui lamentam de não ter trazido dinheiro. E com a informação certa ainda é melhor. Os chamados close-outs, por exemplo, lojas de departamento como Loehmanns, vendem roupas femininas dos mais famosos costureiros como Dona Karan, Calvin Klein etc. a preço de banana, digamos um blazer que custaria originalmente US$ 290 sai por US$ 110. A razão suposta é que esses produtos não passaram pela inspeção de qualidade dos atacadistas que em geral servem a esses costureiros. A olho nu, pelo menos, pessoas normais não notam os defeitos, que, a meu ver, não existem. Deve haver outra explicação. (...) As liquidações, em toda a cidade, de todos os artigos, tentariam Jesus Cristo, se ele fosse dado ao consumo. Acho amável também que todas as lojas de mulher, com pena das abatidas pelas exigências da moda, sempre apresentada por modelos cujo físico lembra a Vênus de Milo, e gente raríssima na vida real, tenham departamentos dedicados a "sizes plus", a "maior tamanho", que, verifico, não é só tamanho, mas gordura e outras medidas "politicamente incorretas".
Nova York(Globo,12/11/92) - St. Marks place, São Marcos, em Nova York, é famoso. Fica na altura da Rua 8 do lado Leste. Trotski morou lá e ficou bestificado com o vigor dos EUA (corre a lenda de que trabalhou como extra num dos primeiros filmes mudos, no tempo em que Nova York ainda era o centro do incipiente cinema americano, mas o filme, se existe, não foi encontrado). O poeta W.H. Auden teve lá um apartamento por muitos anos, porque era uma vizinhança acolhedora, como as cidadezinhas do interior, habitada por boêmios artísticos e famílias imigrantes judaicas, sua primeira geração. Hoje é uma favela. Hélio Oiticica, meu amigo, morto, morou lá e a casa dele era uma fortaleza. Drogados ladrões à cata de dinheiro. Gente berrando animalmente na rua. Camelôs e lojas de comércio menor, mas sem nenhum charme. Bons restaurantes japoneses, bons e baratos. Mas eu só iria lá por motivo de força maior. Fui ao Orpheum ver a peça de David Mamet, "Oleonna". Oleonna, verifiquei, foi uma comunidade utópica na Noruega. O que fazia lá, não sei. A platéia era como não vejo em teatro desde o fim da década dos 70, quando fui ver "Nitht and day", de David Stoppard (Jacqueline Kennedy, Gloria Vanderbilt et. al.). Mulheres minimamente vestidas, no sentido de falta de adereços, mas esse "menos é mais" custa mais caro do que os galardões de uma galinha choca. O casal cinematográfico, Molly Haskell e Andrew Sarris, com o magnata cara de macaco, S.I. Newhouse, dono de um império de revistas, jornais etc., de "Vanity Fair", ao "New Yorker", a "Vogue", onde Molly escreve sobre cinema. Leio, como dizia Billy Wilder, debaixo do secador.
Nova York (Globo,29/08/93) - Ajudo uma senhora que mora no sétimo andar e ficou presa do lado de fora. Mal pode andar e deve ter uns 80 anos, imagino. Mora só. Abro a porta do apartamento com as chaves do porteiro. Ela parece de natureza animada e conversadora. Se tiver um troço pode morrer antes de conseguir falar no intercom, ou pelo telefone. Os móveis do apartamento mostram que há dinheiro suficiente. A maioria das pessoas teria um cachorro ou gato. Conheço os cachorros do prédio melhor do que os moradores. Muffin, uma cadelinha muito afetiva, está com diabetes e ficando cega. Mas não perde o ânimo. Acho que me reconhece quando a afago. Se desce no elevador com vizinhos e a conversa é se o tempo estava pior ontem do que hoje, se amanhã etc. É Nova York.
Nova York (OESP, 19/6/94) (*) - Eu gostaria de ser o fantasma do Metropolitan Museum, escondido durante o dia e saindo à noite para olhar o que há.
Nova York (Globo,24/10/96) - Com amigos, tomo um Chambertin, Charlemagne 1961, no Le Bernadin, um dos mais ambiciosos restaurantes de peixe de Nova York. O vinho é do balacobaco. Na mesa ao lado, Dan Rather, o âncora do jornalismo da CBS-TV,. É o terceiro colocado, atrás de Peter Jennigs, ABC-TV, e Tom Brokaw, NBC-TV.
Nova York (Globo,12/01/97) - Os Rockefeller, no início do século, tinham, em dinheiro de hoje, UR$ 14 bilhões, é o que conclui Cary Reich, numa biografia de 700 páginas, Doubleday, US$ 39, que cobre a vida de Nelson Rockefeller de 1908 a 1958, quando se elegeu governador do Estado do Nova York. Nelson morreu em 1979. O avô de Nelson, John, é quem fez a fortuna. Numa certa idade, protestante, virou filantropo. Fez a primeira universidade negra nos EUA, Howard, e seu filho John D. Criou o Instituto Rockefeller, um dos melhores centros de pesquisa médica do mundo, e "n" caridades. Nelson é, para meu gosto, a estrela da família, pois fez o MoMa. Nelson era Nova York. No bom e no mau sentido. Grande entusiasta das artes e cultura, e, ao mesmo tempo, em companhia do urbanista Robert Moses, destruiu a velha Nova York do comércio, pequeno comércio, que chegou a ter 2.500 gráficas artesanais, no lado oeste. Ainda hoje, Nova York é comércio. Nelson queria que fosse o quartel-general das grandes corporações do mundo. Chegou a ter 168 das maiores, mas, hoje, caiu a cerca de 60. Nelson criou projetos faraônicos tipo Word Trade Center, e rodovias que deformaram a cidade em favor do automóvel, esse fedor anti-social. "O cavalo já foi um erro", dizia Thomas Jefferson. Mas Nelson foi um homem de seu tempo. Governador três vezes do Estado, popularíssimo, de linguagem escatológica, priápico (morreu do coração no ato), era uma figura muito curiosa. Quis estrear "Cidadão Kane" no Radio City Music Hall até que Hearst, protótipo de Kane, ameaçou contar em série nos seus jornais a biografia do Rockefeller avô. Patrocinou artistas comunistas (trotsquistas, para ser exato), como Diogo Rivera, comendo a mulher dele, Frida, e era uma personalidade renascentista. Deixou Nova York cheia de dívidas, mas animou muito a nossa vida. Como todo brasileiro da minha formação, aprendi sobre Nelson que era um cão capitalista. Em seis meses de Nova York, mudei de idéia. Tudo de bom nesta cidade tinha um dedo Rockefeller. Em 1974, vi "Tristão e Isolda", com Birgit Nilsson e Jon Vickers, com os UR$ 5 milhões da produção pagos por Abby Rockefeller, prima de Nelson. William Faulkner disse que a "Ode a uma una grega" de Keats valia 30 mil velhotas. (...) Imóveis de preço médio caíram em Paris e em Londres. Vi uma maisonnete em Bloomsbury, freehold, comprável, por UR$ 270 mil, dois quartos, banheiros etc. Por 200 mil paus você compra um pied-à-terre em Paris, fora dos banlieus sórdidos. Já em Nova York, u-lá-lá, tudo pelos olhos da cara. Cismaram com esta cidade barulhenta.
Paris (OESP,25/04/91) - Venho para Paris, uma semaninha, que ninguém é de ferro. Há um ano e quatro meses não tiro um dia de descanso. Volto a este moinho de escravos, como Sansão cego, semana que vem. É humilhante ser brasileiro. Preciso de visto para entrar na França. É exigência dos anos 70. Motivo ostensivo: travestis pátrios se mudaram en masse para Paris exibindo seu hermafroditismo no Champs Elysées, e lutavam contra a imigração que queria deportá-los. O Quai dOrsay, o Ministério do exterior francês, pediu audiência ao nosso embaixador em Paris. Era um embaixador muito sofisticado e se recusou a receber o protesto. Tascaram o visto em cima de nós. Waaal... Eu disse o motivo ostensivo e, poderia acrescentar, o inicial. Precisamos agora não só de visto como mostrar a passagem de ida e volta. É que brasileiros estão debandando para o Exterior, porque consideram a vida no Brasil intolerável. Em Miami, há ruas e ruas em que se fala português. Em Nova-Iorque, é menor a imigração, mas conheço aqui gente humilde e já de uma certa idade a quem jamais ocorreria em circunstâncias normais deixar o torrão natal. Gente que faz trabalho servil. Antigamente, eram só moças de Governador Valadares que, tendo pecado, em vez de fuziladas pelos pais nesses tempos modernos, eram mandadas para trabalhar em Nova-Iorque. Era possível vê-las, algumas bem engraçadinhas, de braços dados, na Quinta Avenida, aos domingos, como no footing em Governador, quando um dia, um olhar, e se perderam... Eta ferro! Mas li em Veja que até o Canadá, que é o lugar menos brasileiro do mundo, com nove meses de frio intenso e que cobra US$ 500 mil de caução para imigrantes, recebeu brasileiros jovens, casais, já com esse dinheiro, aos milhares, gente em suma que é a fina flor do progresso de qualquer país, jovens empresários e profissionais vários. Em Portugal já tem até carnaval e muito brasileiro fala dos seus anfitriões. Brasileiro diz que Portugal é sujo, como se o Brasil fosse limpo. Nosso resvalo do Terceiro para o Quarto Mundo é uma realidade. A deterioração ocorreu precisamente nos 20 anos em que estive aqui.
Paris (Globo,28/04/96) - Se tudo der certo, quando esta sair estarei entre Paris e Londres. É muito filisteu da minha parte, mas Paris, para mim, começa com uma visita ao La Serre, cujo único defeito é não aceitar cartões de crédito. Talvez me volte algum apetite. Ando meio enojado de comida, em geral, uma condição espiritual, e não física. Em Londres, de saída a retrospectiva Cézanne. Espero ver a trilogia "Édipo" que Peter Hall vai montar. Ele é um tanto sobre o saltimbanco, mas em textos sérios é impecável. Vi um Ibsen dele, "O mestre construtor", em novembro passado, brilhantemente dirigido. Alguns dias longe das buzinas de Nova York.
Petrópolis (FSP,25/02/88) - Subi a serra do Rio durante o Carnaval. Boa parte tinha caído, o que inclui uma porção de Petrópolis, que já foi uma das cidades mais civilizadas do país e que ainda contém edifícios de bom gosto aristocrático, gosto impensável no "paraíso turco" em que estive em São Paulo e hotel Maksoud. Que barraco desabe (ou "deslize" no eufemismo da mídia) na chuva é esperado. Afinal, barraco é construído no peito e na raça, sem qualquer controle ou fiscalização e em bases precárias. Pobre existe para sofrer desgraças. É uma simetria cruel mas não surpreende a ninguém. Oscar Niemeyer me disse uma vez que o barraco era um exemplo perfeito de arquitetura moderna. Os pobres podem se consolar de que morrem pela arte. Mas o diabo é que desabaram casas de ricos. Presume-se que foram construídas, ao contrário dos barracos, sob inspeção de autoridades. Perto do Quitandinha, uma menina estava tendo a sua festa de 15 anos quando saí do Brasil, não encontrados. Perderam o desfile das escolas de samba. O prefeito, com o nome sugestivo de Rattes, tinha, me contou uma autoridade do Rio, uma modesta casa de beira de estrada. Eleito, empossado e outras delícias da democracia, a tal casa começou a ser expandida com piscina, quadra de tênis, campo de golfe e até um haras. Tudo isso com o salário de prefeito de Petrópolis. Hum... Ao se encontrar com uma autoridade federal, Rattes foi saudado pelo povo de Petrópolis com "Não dá dinheiro para ele, não, que ele é ladrão".
Petrópolis (OESP,20/08/92) - Dei uma grande volta pelos arredores de Petrópolis, que é por trás da vulgaridade pública do "centro", um lugar esplêndido, com mansões belíssimas, tudo escondido, claro. É uma cidade em que eu viveria. Tem quatro estações até. Comprei uma casa lá em 1980 e esperava na abertura política passar pelo menos três meses no Brasil, os chatérrimos, aqui, junho, julho e agosto, mas Ribamar me levou a tais paroxismos de fúria com seu "governo" que deixei a casa abandonada e, espero, assombrada. Havia quatro anos eu não ia lá, pelas memórias de irritação com Ribamar, mas tomei coragem e desta vez fui e vou tentar reformar a casa e, quem sabe, no próximo governo, dependendo de quem seja, eu possa passar ao menos agosto na pátria amada, salve, salve.
Rio de Janeiro (FSP, 17/01/87) - Quando eu tinha quinze anos e morava em Botafogo ia andando até Copacabana e Ipanema sozinho e falando comigo mesmo. Para os paulistas - que imagino maioria dos meus leitores - explico que é uma caminhada (ida) de 6 km. Pouca gente na rua. Naturalmente eu fazia isso à noite. Durante o dia "interpretava" o estudante e, com maior má vontade, o filho de meus pais, e forçava com maior naturalidade do que hoje em dia interesse pelo que faziam os outros. Imagino essa viagem de ida e volta hoje em dia. Rubens Fonseca me disse que se veste todo esculhambado e anda tanto quanto eu na infância. Ouve os murmúrios iletrados da multidão. Registra na melhor prosa que temos. Até hoje escapou. As histórias que ouço são diferentes. Um amigo meu teve de pedir pela própria vida no automóvel dele levado que foi de Ipanema ao Galeão. A humilhação deve ter sido terrível. Eu ia a Copacabana onde quase todo mundo se conhecia e a uma Ipanema que sugeria um deserto. O Brasil tinha cinqüenta milhões de habitantes na época. A Suíça tinha seis milhões. Hoje a Suíça tem seis milhões e o Rio tem treze e São Paulo tem quinze. Genebra tem 170 mil habitantes. A favela da Rocinha tem quatrocentos mil. Eu falava sozinho (hábito que retenho até hoje) e imaginava como sair da América Latina. Leio uma entrevista de Lincoln Kirstein na "New Yorker". Diz ele: "O problema do intelectual na América Latina é como sair da América Latina". Nada mudou substancialmente em quarenta anos. Continuamos no mesmo cangaço provinciano. Quase quando comecei a ler perguntei a meu pai por que havia secas e enchentes no nordeste. Faz cinqüenta anos. Me lembro que achava extremamente divertido que elogiassem o presidente Dutra por ter saneado a Baixada Fluminense. Hoje entendo porque o elogiam. O homem fez alguma coisa - medíocre mas fez.
Rio de Janeiro (FSP,25/02/88) - Brasil. Único, incomparável. Eu não ia aí há um ano e oito meses. Meu velho amigo Fernando Gasparian, outra especialidade brasileira, o milionário marxista, me repreendeu aqui em Nova-Iorque, dizendo que eu deveria voltar e ver as coisas porque estou muito desatualizado. Hum... Quando saí, o Rio estava desabando sob chuvas. Mais uma vez, barrancos, Terceiro Mundo, não se espera outra coisa. Mas desabou uma clínica de velhos em Santa Teresa, presume-se que um prédio de concreto, erigido sob todas as especificações de segurança da prefeitura ou governo. A conclusão inescapável é que o empreiteiro, para economizar, molhou o bico das "otôridades". 340 velhos "deslizaram" pelas encostas, não se sabe com quantos mortos. Não li ou ouvi uma palavra na imprensa sobre estas "irregularidades". As pessoas talvez já estejam conformadas, ou abúlicas, ou além do desespero, sei lá. (...) Há 47 anos fui ao Metro Passeio, na cidade (centro), no Rio, cinema que oferecia algo inédito em cinemas brasileiros. A imagem estava em foco. Até que os imperialistas instalaram esta rede de distribuição Metro, no Rio (então capital), todos os filmes eram mostrados fora de foco, pelo maior exibidor brasileiro, Luiz Severiano Ribeiro. Lembro até do filme, "Maria Antonieta" (também conhecida como Marie Antoinette), com Norma Shearer. Havia uma "avant-garde" em que Norma olhava para a câmera, isto uns 25 anos antes de Godard e Bergman. A garotada gritava: "Hoje não, Norma, hoje eu não quero, estou cansado". Tudo muito divertido, mas terminou o filme, caía um vasto toró. Eu morava em Botafogo, então um bairro chique (até 1960, digamos), e peguei um ônibus. Quando cheguei à "fronteira" do bairro, a rua Voluntários da Pátria, não se podia ir adiante, porque tudo estava alagado. Fui a pé, no calcanho. Água pela cintura durante alguns quilômetros, com várias turbulências. Sempre fui um covarde. Talvez seja "trauma". Nada mudou. Chove algumas horas e o Rio pára. A rua Voluntários da Pátria enche. Há mais barracos, logo caem mais, em quantidade, já que a Rocinha tem duas vezes e meia a população de Genebra, na Suíça. Mas, no resto, com governos democráticos, ditatoriais, Rio capital, Rio a maior favela brasileira etc., tudo continua na mesma. Vi na televisão o prefeito Saturnino Braga, que criou pilhas de secretarias novas, empregando seu curral eleitoral, mas segurança e conforto, picas. Saturnino falava muito. Já Moreira Franco, o governador, que é um cara muito inteligente (estava negociando investimentos para o Rio no Japão quando, não me lembro se foi o lucro clínico ou o jeca, decretaram a moratória, o que naturalmente brocha qualquer investidor) parecia perplexo. Primeiro "cai" Petrópolis, que deve ser (ou será Niterói?) a segunda cidade do Estado, depois "cai" o Rio. Faz o que pode, mas...
Rio de Janeiro (FSP, 19/05/90) - Vi Sammy Davis Jt no Copacabana Palace, no Rio, naquele tempo capital cultural indiscutível do Brasil, e editora da moda em tudo, e o Copacabana Palace estava na sua última grande fase, com Oscar Orstein, na direção artística, e ele nos trouxe, entre outros, Nat King Cole, Ella Fitzgerald e Sammy. O Copacabana foi um marco. Agora virará um hotel fuleiro "pompier" de excursão. Mas no tempo dos Guinles era o máximo, desde o restaurante, o Bife de Ouro, o melhor da cidade; uma vez almocei lá com San Thiago Dantas e o "sommelier" trouxe sem ser pedido o vinho do dr. San Thiago; o anexo em que ficava o "gratin" de São Paulo, nas "festas" (difícil de dizer quais as outras, à parte o carnaval). 250 paulistas, 250 quilos de cocaína; mas nesses tempos discretos, antes que a droga chegasse à turma do "milk-shake", não havia quem morresse de "overdose", que é coisa de criança desprevenida.
Rio de Janeiro (FSP,05/08/90) - Em 1949 vi no Teatro Municipal do Rio "Hamlet", de Shakespeare, em tradução de André Gide, representado pela então primeira companhia particular da França, a de Jean Louis Barrault. Não era um acontecimento atípico do Rio, capital do Brasil, então, e indiscutível centro da cultura do país. Era possível morar no Rio, na época, e não ser provinciano. Vi Barrault três vezes, até 1956, quando ele estreou na cidade uma encenação revolucionária de "Jardim das Cerejeiras", que levada depois a Paris mudou a maneira como a maioria dos diretores encenava Chekov no mundo ocidental. Vi a "Comédia Française", companhia oficial do estado francês, diversas vezes, e Jean Vilar, um dos mais criadores diretores do teatro moderno e ator. Não tenho idade para ter visto as temporadas de ópera de Walter Mochi, empresário que anualmente exibia no Municipal uma italiana e uma alemã. Os maiores cantores do mundo passaram pelo Rio. Mas no meu tempo, se não pude ver Cláudia Muszio, incomparável, cantando a sua última "La Bohème", quando já leucêmica, vi Maria Callas, Renata Tebaldi, Mario del Monaco, Ferrucio Tagliavini e todos os demais que seriam as estrelas do Metropolitan Opera House, na década de 1960, hoje reconhecida com a última década de grande bel-canto, em que cantores como Pavarotti e Plácido Domingo seriam corridos à vaia do palco. Não houve virtuose de piano ou violino que não tocasse no Rio e lá regeram de Toscanini a Stravinsky. Toscanini estreou como maestro no Rio. Era possível importar livros a preços normais nas livrarias Ler e Kosmos, e também consegui-los na casa Crashley, na rua do Ouvidor. Isto é, não se tinha de esperar a tradução, em geral grotesca, ou ficar limitado ao eterno romance dos escritores brasileiros com vacas e a desdita do nordestino, ou índio. Museu de Arte Moderna, criação quase que particular de Niomar Moniz Bittencourt, nos deu a pintura que vai de Gauguin a Jackson Pollock. E por aí. Cidade devastada - Um bom motivo para não reconhecer Juscelino Kubitscheck como grande presidente foi que tenha criado a sinistra Brasília, que pouca gente tolera, aqueles que são obrigados a trabalhar lá, na maioria, ficam na cidade apenas de terça a quinta-feira. E foi JK que iniciou a destruição do Rio, continuada por todos os que o sucederam, desde os eleitos democraticamente (Jânio) e os generais, nenhum, que eu saiba, interessado na sorte da cidade. Geisel, por certo, impediu que o Copacabana Palace fosse moído pelos empreiteiros, tomando-o, temporariamente. Mas foi sob Geisel que o Rio, a cidade de maior renda per cápita do Brasil, teve de engolir o atrasadérrimo Estado do Rio, de que se tornou capital, caindo de renda e até com problemas econômicos insolúveis, sem falar da horda incontável de gente de outros Estados, do Norte e Nordeste, que migrou para a cidade. Os ignorantes, pobres e doentes não têm, por certo, responsabilidade inicial pelo que são. Mas se lhes é dada a oportunidade de melhorarem e se curarem e se persistem na sua condição de miséria, não merecem maior consideração. Mas nem é preciso meditar sobre isso, porque ninguém ofereceu nada a ninguém. A premissa básica da política brasileira nas décadas de 1980 e 1990, está começando, e não há distinção entre partido e candidato, é que todo mundo tem direito a tudo sem fazer a menor força, o que é uma cópia ao vivo, dos políticos, do comercial de televisão, que domina à escravidão a mentalidade da maioria dos brasileiros. Ter visto o Rio em 1950, passear com Carlos Drummond de Andrade e Santa Rosa, pela Cinelândia, limpa, arejada, e hoje ir a essa mesma Cinelândia, que sugere uma "orgia" do falecido ditador Papa Doc Duvalier, é uma experiência devastadora, quase inacreditável, para quem nasceu lá e amou o Rio como eu. Copacabana limpa, chique até e habitada por gente que parecia banhada e vestida decentemente, existiu, sim, às margens do Mediterrâneo, que apesar de "Veja" declarar a existência de esgotos na praia, as águas eram limpas, e não a latrina de hoje freqüentada por multidões barulhentas que são despidas dos mínimos adereços por ladrões. Copacabana já foi vazia, habitada na maior parte por gente da Europa. Ipanema e Leblon eram desertos entremeados por uma casa aqui e ali. O chiqueiro atual é fruto da referida ignorância, pobreza e doença, que já tão infeliz em si, é prometida mundos e fundos por demagogos, sem que tenham a menor intenção de cumprir, e o pobre, o ignorante e o doente se voltam contra a classe média, que, de resto, parece ter em grande parte sumido, se mudado do Rio, ou está sendo gradualmente assassinada pelos meliantes. Roubada pelo governo federal, depenada é a palavra, e arcando com o Estado do Rio, ainda haveria saída se a cidade fosse transformada em centro turístico. Permanece, na natureza, a cidade mais bonita do mundo, apesar de suja e favelada. Mas, para tanto, seria necessária alguma forma de disciplina populacional. Ou seja, um hotel de luxo que tenha praia aberta, deveria ter o direito de fechá-la aos ladrões e reservá-la para o turista. E o Estado do Rio, claro, é uma das maravilhas do universo. Tem paraísos de praia e montanhas, de calor e frio, que só são encontrados no Líbano, mas este está em guerra civil mais séria do que o Rio e não compete. O Rio poderia competir se alguém tivesse a coragem de ir contra a demagogia da "multiplicação dos pães", que só dá certo em historietas, e tivesse autoridade para cobrar tudo que Brasília roubou do Rio.
Rio de Janeiro (OESP,13/05/92) - Pobreza é um problema complexo, mas certamente a maneira de resolvê-lo não é atirar os pobres em bairros ricos. A zona sul do Rio, invadida por dois túneis, Rebouças e Dois Irmãos, hoje é um espetáculo dos mendigos e dos miseráveis, sem a pena de Victor Hugo para transformar em arte o horrendo. Por que não se fizeram projetos comunitários de desenvolvimento nos subúrbios? Se há saída, é essa. Mas é inútil argumentar logicamente. A política hoje, e não só no Brasil, é feita para a arquibancada...
Rio de Janeiro (OESP,28/05/92) - O Rio parece uma praça de guerra. Com soldados armados perturbando o tráfego. Todos tem cara de jacu. Com espingarda na nossa direção, quando passei de carro pensei que iam atirar em mim. Imagine os estrangeiros. A marca registrada do subdesenvolvimento, para quem vem do Primeiro Mundo, é ver tropas armadas pelas ruas. Apesar disso o Rio surpreende. Comi mediocremente no Saint Honoré, Bocuse deveria estar lendo sobre os Irmãos Karamello, e comi uma truta divina no Monte Carlo. E, surpresa das surpresas, fui ao Florentinos com o Millorzinho, e havia gente saindo pelo ladrão. Gente muito jovem e algumas pessoas extremamente bonitas. Mas me senti como um macróbio no meio daquela garotada, apesar de as pessoas me tratarem com a maior gentileza, como sempre, no Rio e em São Paulo. Até que vi a cara de Geraldo Casé, meu colega de colégio e geração.
Rio de Janeiro (Globo,07/06/92) - Amigos meus estocaram mantimentos, videocassetes etc. e se entrincheiraram em casa durante a Rio-92. É dia 10, acho, que fecham a Avenida Atlântica no Rio e se levará do Forte de Copacabana ao centro da cidade cerca de três horas de automóvel, buzinas wagnerianas e schoenberguianas, dióxido de carbono expelido o suficiente para envenenar o Rio. Waaal, como dizem, é para inglês ver, os gringos ilustres que nos visitam. Já a Linha Vermelha, muito confortável para quem sai do Galeão ou vai a ele, driblando a Avenida Brasil, com seu fedor de carniça, nos dá, em síntese, o Rio de hoje, porque se olhando à esquerda vindo e à direita indo, se vê não o verde dos morros, mas cerca de seis favelas empilhadas de detritos materiais e humanos. Devem nos lembrar que Aristóteles, que dominou a filosofia ocidental por dois mil anos, disse que a cidade humana deveria ter no máximo 500 mil habitantes. Mais é formigueiro, colmeia, e o comportamento dos humanos deixa muito a desejar comparado ao das formigas e abelhas. Praticamente 50 por cento da população brasileira estão pendurados na costa Sul do país e ameaçam tornar Rio e São Paulo inabitáveis. É pseudismo de quinta categoria dizer que abrimos os braços para essa miséria toda. O que se poderia fazer por ela é promover o crescimento econômico de suas regiões, para que não tivesse de migrar à cata de trabalho servil no país moderno, porque para outro tipo de trabalho não está qualificada; em vez de fazê-la sofrer de inveja e frustração com a vida melhor que se tem no Sul, o que termina se convertendo em agressão, na violência notória das nossas principais cidades. Quando se vê essa gente amontoada no Rio, com o embaixador do Papa garantindo o descontrole da natalidade, o controle é uma necessidade inadiável, porque a população mundial dobra em alguns anos e o humano e individual se atomizam (impossível imaginar uma China, com um bilhão de habitantes, democrática); ou aqueles cavalheiros de toalha na cabeça, insistindo em que emissões de óleo não emporcalham o meio ambiente, para citar apenas dois exemplos; é de se dar de ombros, jogar as mãos para o ar e ficar em silêncio para sempre.
Rio de Janeiro (OESP,18/06/92) - Pessoas me contam das delícias do Rio semana passada. Se podia andar na cidade de novo sem ser atropelado por les miserables. Um velho amigo me diz com satisfação quase sensual que andou do Morro da Viúva, no Flamengo, onde mora, até Ipanema, e por Botafogo, o caminho mais longo, entrando pela Rua Voluntários da Pátria. Botafogo está irreconhecível. As grandes casas, como a de San Thiago Dantas, foram transformadas em colégios. Subi o Túnel Velho, pela Rua Santa Clara e Anita Garibaldi onde procurou em vão o Chanteau (fechou nos anos 60...). Terminou na Praça General Osório, que, abreviada, era chamada pelos garotos de General Gosório. Lamenta a queda do gabarito máximo de quatro andares para Ipanema, que fazia do lugar uma vila não muito menos saborosa do que Cannes, nos anos antes da porcaria do Festival de Cinema. Me ocorre que Brigitte Bardot, titia ecológica por excelência, foi responsável com sua presença gostosa pela destruição de duas vilas primitivas e pitorescas: Cannes e Búzios. Rebolou de biquíni e milhões de gafanhotos vieram atrás. Pessoas de meia-idade em diante não ousam mais sair a pé no Rio. Tenho amigos cheios de vitalidades que trabalham em casa e só saem rumo ao Galeão quando vão ao estrangeiro. Até dirigir no Rio se lhes tornou insuportável, porque uma Beirute-mirim. Agora, se fez do Rio o que Potemkim transformou a Rússia para enganar Catarina, a Grande. Escondeu-se o sujo e se instalou o provisório. Isolou-se a Conferência na Barra, se fechou o trânsito, o que deu uma estia a meus velhos amigos, como esse andarilho do Flamengo... Meu Rio ainda era o do Machado de Assis, europeu, de 1 milhão de pessoas, povo eleito. Rubem Fonseca escreveu seu réquiem em O Romance Negro, num conto chamado Como Andar nas Ruas do Rio de Janeiro. Descansa em paz.
Rio de Janeiro (Globo,23/08/92) - Voltei pelo Galeão, irreconhecível, transformado de pocilga tropical caindo aos pedaços em aeroporto de Primeiro Mundo. Sim, as cores são muito feias e alguém ainda fará fortuna no Brasil como artista gráfico ensinando o uso de letras, mas modernizaram o Galeão por causa da Rio-92, pra gringo ver, quando já deveriam ter feito isso havia muito tempo, se houvesse um mínimo de respeito dos governos pelo público. Fiquei no Othon Rio e Copacabana é, de cima, bonita. A cidade é, em beleza natural, insuperável, como notou James Mason, em "Five fingers", em que viu o Rio grumete e jurou que moraria lá um dia e se tornou espião nazista, Cícero, na Segunda Guerra, dando todos os segredos aos nazistas, que não os aproveitaram, e pagaram a Mason com dinheiro falso, e, falha do filme, ele é preso no Rio como ladrão, o que sabemos não acontecer. Mas, sem brincadeira, o Rio poderia substituir Veneza, que está afundando, como centro de convenções internacionais. Ou, pelo menos, pegar de 20% a 40% desse magnífico negócio, cem bilhões de dólares ao ano. Claro, teria de haver uma limpa como na Rio-92, mas as "expos." trariam tanto dinheiro que talvez fosse possível prover aos infelizes entre os marginais um caminho honesto de reentrada na sociedade, pela educação e pelo trabalho. O clima do Rio é o preferido pela gente do Hemisfério Norte, onde está o dinheiro mundial, que adora alguns meses de calor, o povo é afável e acomodações e entretenimento não faltam. Sou também favorável ao separatismo, a princípio do Estado do Rio, e, depois, do Brasil, o Rio deveria ser uma cidade livre associada apenas à União, quando seriam criadas leis adequadas de imigração. Sempre foi a cidade mais hospitaleira do Brasil, em que todo mundo se tornava carioca com uma semana de estada, mas abusaram, abusaram, oh como abusaram...
Rio de Janeiro (Globo,27/08/92) - Gente importante só vai ao Rio por causa da Petrobrás e da Rede Globo, me informam. É tempo de acabar com isso. Por que alguém não usa a cabeça, em vez das quatro patas, e, por exemplo, negocia com a Disney a abertura da Disney América do Sul na cidade mais bonita do mundo? Vai chegar o tempo em que Disney, seguindo o exemplo da EuroDisney, vai se voltar para o nosso subcontinente. Orlando, Flórida, é um pantanal saneado. Pois recebe 40 milhões de turistas ao ano, para a Disneyworld. Nunca fui ou irei. Mas amigos meus, com filhos, já foram e repetiram. Já pensaram numa Disney-Rio, que permitisse à gente que não pode viajar para os EUA ou Europa ver a nossa cidade e suas atrações naturais? Temos a infra-estrutura hoteleira, de transportes ( a Linha Vermelha, planejada há decênios, finalmente funciona), de restaurantes etc. Os 40 milhões que vão a Orlando, Flórida, por ano, que deixem mil dólares per capita, são uma fortuna inimaginável para os cofres inchados e deficitários da cidade, incapaz de gerar qualquer iniciativa privada que não seja do camelô. E, claro, este fluxo de gente animaria outros setores, faria o Rio voltar a ser o centro artístico que já foi na juventude de meu pai e até um restinho na minha própria.
Rio de Janeiro (Globo,16/09/93) - Gente saindo pelo ladrão sexta-feira no Hippopotamus, de Ricardinho Amaral, comida excelente, mulheres lindas, rapazes bem vestidos, amigos velhos, quem pode pedir mais, Who could ask for anything more? Há 15 anos, contra todos os ventos, como um Ajax, cujas barbas sugerem cumplicidade de Poseidon, Ricardinho luta contra a tentativa das autoridades do Rio de destruir sua cidade, adotiva, porque é paulista. Quando saímos há filas. Embaixo se dança como São Guido manda, mas em cima estamos num clube tão satisfatório como o Annabelle de Londres, com que, de resto, o Hippo tem certas semelhanças físicas. Vou almoçar com um amigo na Gávea. Me mostra à direita uma casa de saúde que quis estender suas instalações e foi proibida pelas autoridades. Os terrenos de um senhor que quis distribuí-los aos filhos, construindo casas, novo veto. A direita, tudo na mesma montanha, uma favela cresce, com aprovação das autoridades. Meu amigo me conta que quando chega um carregamento de droga há festa entre os favelados. Devem ser muito pitoresca, sem dúvida, desde que não se esteja na linha de tiro dos mais exaltados. (...) Come-se muito bem em alguns restaurantes brasileiros. No St. Honore no Rio fiquei tão deliciado com uma iguaria que achei que merecia uma taça de champanhe. Mas só tinha nacional, que atende pelo nome de M. Chandon. Um amigo diz que não é champanhe, é xampu. Como diria Ibrahim Sued nos velhos tempos, não poderia ser mais xangai.
Rio de Janeiro (OESP, 19/9/93) (*) - Já vi Côte dAzur, Nápoles, Hong Kong. Nada se compara à avenida Atlântica vista do 24a. andar do Othon Palace no Rio. Copacabana é ainda um dos espetáculos naturais mais belos da Terra.
Rio de Janeiro (Globo,11/02/96) - Nova York. Você já foi às Bahamas? Então vá. Numa praia lá comentei que nunca tinha visto tanto branco desde os lírios do campo. A resposta direta é que os afro-bahamianos tinham acesso proibido às praias, reservadas para turistas da Europa e dos EUA. Se se fizesse isso no Rio, reservando o Vidigal, Leblon, Ipanema e adjacências para o turismo endinheirado, haveria protestos politicamente corretos. Waal, tivemos 20 anos de regime militar e essa gente, na grande maioria, enfiou o rabo entre as pernas. Em Copacabana, bastaria que fossem liberados os aluguéis. Apartamentos grandes, verdadeiras casas de cômodos, seriam despejados dos seus penurientos ocupantes, de onde saem naturalmente os jovens bandidos que tornaram a ex-Princesinha do Mar um dos centros mundiais do banditismo urbano. Não se resolvem problemas sociais com propinqüidade. Ou seja, jogado a pobreza em cima da classe média, com os Túneis Rebouças, Dois Irmãos, e abrindo a cidade a flagelados de urbi. À medida que são passíveis de solução, as tensões sociais diminuem com a abertura da economia. Imaginem Leblon, Vidigal, Bandeirantes etc. Saneados para o turismo. O Rio enriqueceria e criaria empregos para os pobres, os recuperáveis, que vivem nos mocambos da Zona Sul. A cidade ganharia mais dinheiro do que é sonegado pela Petrobrás ao Estado do Rio, onde o petrossauro tem 60% da sua prospecção de petróleo. Como o que escrevi é racional, não tem a menor chance de se tornar plataforma política em democracia de baixo nível cultural como a nossa. Mas sou carioca, vivi na cidade até 1971, e o adjetivo maravilhosa não era descabido.
Rio de Janeiro (Globo,23/01/97) - Morreu o Antonios no Rio. Pior, vai virar biboca mexicana. O apóstrofo s (s) é uma ressaca da fascinação dos nossos botequineiros portugueses pelos EUA, depois da Segunda Guerra. Durante a guerra o Brasil, ou melhor, o Rio descobriu os americanos. A cidade era baldeação dos soldados, marinheiros e aeronautas dos EUA, que iam para Natal, no Rio Grande do Norte, que os EUA invadiram antes de atacar a Itália, em 1943. Os americanos simplesmente adoraram Copacabana. Inflacionaram o preço dos amendoins e das moças de vida airada. Muitas de nossas meninas, para fúria dos nativos, ficaram também encantadas com eles. O cinema de Hollywood reinava supremo. A inauguração do Metro Copacabana, com "Balalaica", um filme idiota sentimentalizando os cossacos, Nelson Eddy, de cossaco, e Ilona Massey, sua amada que, a atriz, visitou o Brasil, onde disse que Eddy tinha mau hálito, e, provavelmente, teve um amor brasileiro... Mas os botequins todos acrescentaram um apóstrofo e um s ao nome (s), como Manuel, que virou Manuels. O Antonios era uma casa italiana, de dois irmãos sorridentes, Manolo e Florentino, que ambiente de clube, em que se falava baixo. Tinha-se, mutatis mutandis, a impressão de estar numa tratoria em Roma. Millôr Fernandes e Marcos Vasconcellos me levaram lá a primeira vez. Comia-se direito. O uísque era honesto. Aos poucos gente do Velho Rio começou a freqüentar, Otto Lara, Antônio Callado, Fernando Sabino, Sérgio Porto, Paulinho Mendes Campos e outras pessoas que liam e escreviam livros!!! Acho que foi Carlinhos de Oliveira, então um cronista muito lido, que deu notícia do Antonios. Em pouco tempo apareceram dois tipos de pessoas sempre em perseguição dos chamados lugares da moda: o cafona milionário, cuja mulher se enfeita com árvore de Natal, e o cafajeste ruidoso, que beija os amigos, provoca brigas absurdas, fala sempre gritando e, quando se choca conosco na rua, é bom verificar a carteira. Quando um lugar é anunciado como moda na imprensa está nas últimas, podem crer. O metro quadrado na Reviera francesa nunca esteve tão barato. A maioria das pessoas que tinha casa e espaço lá vendeu, porque houve a enchente de turistas, os apartamentinhos, bebês chorando, fraldas, quintais, etc. e tal. Búzios era bonita e semideserta, até que Renato Acher convidou Brigitte Bardot para passar lá uns dias. Depois de BB, o dilúvio. Quando se lê "Terna é a noite", de Scott Fitzgerald, em que Dick Diver, Nicole e amigos usavam as praias da Côte dAzur quase sozinhos, se tem um aperto no coração. Ainda vi Leblon e parte de Ipanema assim. Minha última lembrança de Sérgio Porto foi na varanda do Antonios, que os proprietários alargaram para acomodar o turismo interno. Achei estranho que ele estivesse lá, na "Sibéria". Bebia miniaturas de Black Label, uma atrás da outra, respirando mal. Morreu do coração com menos de 50 anos, pouco depois do Antônio Maria, que teve um colapso cardíaco em 1964, quarentão também. Duas das figuras mais interessantes do velho Rio. Durante algum tempo, exilados do Antonios passaram no Florentino, perto, mais caro. Ainda me lembro deste quando se fazia uma mesa só, com 20 ou 30 pessoas. Estertores da nossa cidade, antes que os bárbaros arrombassem os portões.
Roma (FSP, 19/11/87) (*) - Tudo é deliciosamente provinciano em Roma. Dizem que é mau caráter dos nativos, mas eles nos tratam com a maior afabilidade, o que não acontece em Paris, Londres e, muito menos, Nova York. Se temos o senso do que Roma foi, e a vemos hoje, tranqüila e amável, a transitoriedade das coisas se afirma de maneira quase intolerável. E a confusão fantástica de estilo, a história controversa que está por trás das mais admiradas obras de arte (como a capela Sistina), obras que parecem harmoniosas (e são, esteticamente), desmentem de maneira frontal aqueles que acham que a história acaba em modelos. Num lugar como a Basílica de São Pedro se vê porcaria ao lado de esplendor, curiosamente harmonizados. Deu certo... Ninguém sabe como. Mas não é a própria igreja uma cópia da Roma antiga? A Basílica de São Pedro é um templo pagão, em que deuses do que chamamos mitologia foram substituídos por papas e santos.
São Paulo (FSP,25/02/88) - São Paulo é diferente. A mim me pareceu do Primeiro Mundo. Ruas limpas. Fui a 5 restaurantes diferentes, de uma oferta de centenas, todos o.k., fui a um dos meus lugares favoritos, o Ca`Doro. Dizem que é obra do doido de pedra na prefeitura. Se for, como parte das minhas palavras sobre ele, mas espero que não seja candidato a presidente, porque se for, troco de nacionalidade. As pessoas falam diferente. Parecem ter o que fazer. Ainda se pode viver sem o governo federal em São Paulo. Este é o segredo da cidade, do Estado. Mas de que adianta falar disso? (...) Já o Maksoud, que estreei, depois de muito ouvir falar, me pareceu um cocô de hotel. Olhem que muito admiro o dono, Henri Maksoud, um furibundo defensor da iniciativa privada, mas nesta tu sifu, malandro. O quarto é mixo, a decoração o que Gloria Grahame chama de "early nothing" (intraduzível). O hotel é sombrio e "feérico" ao mesmo tempo. Difícil explicar, mas fica lá que você nota, toda aquela "feérie" na fachada e entrada, e o escuro-boate nos quartos, o que é vulgarérrimo. E há, hoje, em quase todos os hotéis do mundo, a presunção de que o hóspede seja analfabeto ou tenha visão 20/20, porque as luzes são fraquérrimas. A muito custo desatarrachei a luz do Maksoud e coloquei a lâmpada de 200 volts, que sempre carrego mundo afora, para poder ler "Os Pensadores Russos", de Isaiah Berlin, que, como de hábito - parece espiritismo - a Companhia das Letras vai publicar, em português. Por falar nisso, esqueci a lâmpada no hotel e poderiam - deveriam, se fossem o Dorchester ou Connaught, onde as camareiras nos servem uma marmelada deliciosa sem pedirmos - me mandar pelo correio. O elevador parece de hospital, de tão lento. No segundo dia, notei que o posterior do elevador é uma janela, para podermos admirar a turquice da entrada, hum, além de ser imitação barata do Hyatt de São Francisco, não há o que ver. Os empregados do hotel são eficientes, mas tomei café com um amigo e aquele mamão de fundo vermelho que aqui não tem parecia uma sola de sapato. Jogamos o mamão na mesa. Um fâmulo esperto teria visto e trocado o mamão. Para se ter um hotel de primeira classe no Brasil é preciso comer ainda muito feijão. La Grenouille, em Nova York, é um restaurante "yuppie", a comida é incomível, mas fui lá outro dia, a convite, e não comendo nada, admirei o serviço. Você não "vê" os garçons, literalmente. Claro, que eles trocam pratos, cinzeiros, toalha, tudo que é preciso trocar, em suma, sem que você mal lhes veja as mãos. Falavam francês entre eles. Isto exige anos de treinamento na França ou Suíça. Pode ser - é - uma profissão servil, mas exercida com classe é um espetáculo único (Bernard Shaw não podia entrar num restaurante sem interrogar o gerente, ou dono, e garçons, sobre o funcionamento do lugar. Sempre tive vontade de fazer isso, mas nunca a coragem...) E, depois, aqui se come em meia-hora e no Brasil eu seria recebido com servilismo total. Escravos estão sempre concordando conosco, mesmo quando mentem. Turgenev já dizia.
São Paulo (FSP,17/11/90) - Brasil parado. Minha impressão em quatro dias de CaDoro, um dos melhores hotéis do mundo, com um restaurante que lhe faz justiça, um quem-é-quem de São Paulo.
São Paulo (O ESP,20/01/91) - Salvar Nova-Iorque. O assunto é obsessivo. Nada leio sobre salvar o Rio e São Paulo. Morei em São Paulo, 1948, no Jardim América. A cidade era limpíssima; todo mundo habillé, terno e gravata ou mulhas, costumes, e, vindo do Rio, me espantei com a brancura da raça. Ainda me lembro a Avenida Paulista quando tinha grandes mansões de propriedade de sírio-libaneses, me disseram. Mais tarde, correndo risco de vida com meu amigo Cláudio Abramo dirigindo um carro enorme, acompanhá-lo dirigindo era risco de vida, ao deparar com a humanidade baiana das ruas de São Paulo, perguntei a ele onde estavam os paulistas Respondeu: Estão em casa, entrincheirados e armados. Waaal, aqui é mesma coisa, só que talvez a consciência protestante nunca desista, nunca se conforme que a predestinação seja contra ela, que Nova York será eleita para o reino dos céus. O ensaio extraordinário de Joan Didion, no New York Review of Books, que comentei neste espaço, é um exemplo. Ela acha a cidade perdida, diz que é essencialmente corrupta, fala da ética criminosa de Nova York. Isto é linguagem religiosa.
São Paulo (Globo,04/06/92) - Fiquei em São Paulo no CaDouro, que continua um dos melhores hotéis e restaurantes que conheço, um oásis de civilização. Jantei uma noite também no Massimo, excelente, mas talvez todos estejam um tanto tocados pela recessão. E uma volta de carro por São Paulo é uma luta de tartaruga contra o congestionamento e a poluição, não se vê um guarda de trânsito.
São Paulo (Globo,11/02/96) - Depois de "Saudades do Brasil", em que Lévi-Strauss confessa seu amor pelos índios brasileiros, dos quais os nhambiquaras parecem ser seus favoritos; agora, a Companhia das Letras publica "Saudades de São Paulo", em que nos conta do seu contato com a gente e a cidade nos anos 30, que, nota o organizador da obra, Ricardo Mendes, tinha chegado a seu primeiro milhão de habitantes... Lévi-Strauss é grande admirador, mais um, de Mário de Andrade e do seu círculo, Sérgio Milliet, Rubens de Moraes e Paulo Duarte, este que editou a revista intelectual Anhembi, que li bastante. Uma foto do único arranha-céu em São Paulo, 1935, o Prédio Martinelli, sugere um passado muito distante, quando, em verdade, é de apenas 61 anos. Lévi-Strauss a contrasta com cenas da São Paulo ainda rural. Depois, cenas urbanas que parecem desoladas, sem augurar a pujança econômica da cidade. O livro é o melhor visual que se pode ter sobre a São Paulo antiga, junto com "Saudades do Brasil". Carlyle preferia a Idade Média do século XIX, em que viveu, e confessou. Marx também, se referindo à suposta humanidade maior dos medievais. Lévi-Strauss prefere os tempos pré-Homero, em que a humanidade era toda, espiritualmente, botocuda. Em "Saudades do Brasil", escreve que deixou a Europa porque achava a cultura ocidental sem possibilidades de maiores desenvolvimentos. Isto, antes de Hitler, da Segunda Guerra e todas as mudanças que vieram. Se você, como eu, embatucou na obra mais importante de Lévi-Strauss, o imenso (quatro volumes) "Mitológicas" ("Mythologiques"), incompreensível, em parte, lerá em "Saudades de São Paulo" que o estruturalismo remonta a "Goethe e Wilhelm von Humboldt, que, depois, se separa em dois ramos que conduzem, um, a DArcy e Wentworth Thompson, o outro a Saussure, Benveniste, Trubestkoi, Jakobson..." Tudo claro... Tudo dá certinho no estruturalismo. Lévi-Strauss é um homem de 87 anos. Estes 50 bilhões de galáxias chegaram tarde demais para que ele repensasse o seu conceito de unidade em civilização, já furado, de resto, em outras disciplinas científicas. Mais deixa para lá. O livro "Saudades de São Paulo" cai de charme.
Suíça (FSP, 7/7/90) (*) - O país mais civilizado do mundo, hors-concours, é a Suíça. Onde se falam três línguas (e vários dialetos) e o poder é dividido em cantões. Por que, à la Suíça, não optar pela racionalidade, como notou Borges?
Veneza (FSP,31/05/90) - Veneza continua afundando 20 milímetros por ano, o que não dá cuidados. A cidade quase desapareceu nos anos 60. Agora ameaça de novo ser destruída. Um bando de filisteus quer transformá-la em Venice Expo, um centro de exposições, como se fosse a casa dos dito cujos. Mas agora gente importante, como Bertolucci, Iorde Carrington e Armani, está se articulando contra os patrocinadores da Expo, que, espantosamente, reúne empresas como Fiat, Olivetti, Benetton etc. Vão sofrer o diabo, se não recuarem. Veneza tem 80 mil habitantes. É pequetitinha. Estima-se que agüente no máximo 25 mil turistas por dia. Claro que chegam a ir 250 mil, tornando a cidade intolerável para qualquer pessoa civilizada ( que só põe os pés lá no inverno profundo). A última vez que estive lá foi acompanhando um presidente dos EUA, logo a barra tinha sido limpa pela polícia. Mas há projetos para criar uma rodovia que permita aos milhões de basbaques chegarem à cidade por terra. Não se iludam. Essa massa quer, consciente ou inconscientemente, destruir Veneza. A beleza da cidade, seu individualismo, excita um profundo ódio nos fãs de Madonna e McDonalds. Não escondem seu furor contra a beleza. Já os vi citados em jornais ingleses, franceses e até americanos, reclamando de toda aquela "impostura majestosa". Defender Veneza é uma das poucas causas que me poderiam levar a uma campanha nos dias que correm. E correm, correm...
Veneza (OESP,27/08/92) - Diogo Mainardi e eu pasmávamo-nos outro dia no excelente Fasano em São Paulo com a ruindade do livro de Joseph Brodsky sobre Veneza, Watermarks. Diogo mora lá e não reconheceu em Brodsky a sua cidade física ou espiritualmente. Pois bem, aqui chegando encontrei Venice Desired, de Tony Tanner, Harvard, US$ 29,95,384 págs. Tanner é um eminente crítico literário e escreve como gente, não como acadêmico. Se concentra mais em apor suas opiniões sobre Veneza às de Ruskin, Proust, Henry James e Byron. Pede desculpas por não ter incluído Goethe (que em Veneza chegou a uma conclusão sobre sua vida sexual), Wordwsworth, Stendhal, Balzac, Mary McCarthy etc. Pois Mary McCarthy me parece ter acertado na mosca ao escrever que o fascínio primordial de Veneza é o ouro que se vê de toda parte, como o de Nova York é o cifrão (há mais dinheiro aqui nos bancos que em que todos os países do mundo menos os EUA). Tanner é um esnobe. Quem melhor deu para mim o clima de Veneza foi Daphne Du Maurier, num conto chamado Dont Look Now, filmado, mal, com Julie Christie e Donald Sutherland. Du Maurier sempre foi criadora em atmosfera, tem clima, e é um desses livros de que todo mundo lembra a primeira frase, "Ontem à noite sonhei que fui a Manderley outra vez".
Veneza (Globo, 12/11/92) - Veneza, onde estou no momento, até ser extinta como república independente, por Napoleão, em 1793, era uma potência bucaneira, guerreando turcos, furtando tesouros de nações fracas, entrando em Cruzadas religiosas (a Quarta, principalmente) visando exclusivamente ao lucro. Uma cidade do pecado. Mas que beleza extraordinária se irradia de Veneza, que Mary McCarthy dizia ser o inconsciente da humanidade", "um avarento entesourando suas riquezas". É o ouro de Veneza seu principal fascínio. E Florença, onde estive antes, é a cidade de Dante e Maquiavel. Dante colocou todos os seus inimigos no inferno, e todos os seus amigos no céu. Por trás da sua postura teológica, que Eliot tanto admirava no poema, estão paixões "baixas". E Maquiavel é o maior pensador político que já houve. Nada de substancial se acrescentou ao que escreveu em "O príncipe".
Veneza(Globo,15/11/92) - O Harrys Bar em Veneza está à venda. O horror. Ë o verdadeiro "Maccoy". O resto é imitação. Hemingway escreveu muito sobre o Harrys Bar. Vi lá uma vez Sartre com Simone Signoret e Yves Montand. Sartre, falando sem parar, Simone ouvindo coquete, e Yves, respeitoso. Me perguntei se entendiam alguma coisa. O que faz um bar? Antes de tudo a indefinível atmosfera. Hoje não há mais no Harrys Bar. Só turistas ricos e gente nouveau, querendo captar por osmose as noitadas dos grandes.
Veneza (OESP, 2/1/94) (*) - Veneza está morrendo. Da minha janela vejo o Grande Canal e as imagens que embeveceram de Byron a Henry James. Mas o mais divertido é que Shakespeare, que nunca pôs os pés em Veneza, a imaginou como ninguém em O mercador de Veneza e Otelo. Você respira a cidade nessas peças. O gênio é o mistério da espécie. Veneza não produz. Nada. Tem 80 mil habitantes fixos, mais ou menos, contando todas as ilhas em volta (encontrei numa ilha um jovem simpático e de olhar inteligente que me confessou nunca ter ido a Veneza, propriamente dita. Ele concordaria com Thomas Jefferson em que o cavalo já foi um erro). Seu comércio, muito mais caro que o de Nova York, sobrevive dos milhões de turistas, de quem suspeito querem, nos seus inconscientes, destruir a cidade porque sua beleza não combina com a vulgaridade dos lugares em que vivem. Afronta essa vulgaridade. Quando vi Ruskin se referindo sensualmente às pedras de Veneza (que, moralmente, ele detestava), pensei na impotência dele. Não. Se olha aquilo tudo com amore. Um gigantesco trompe-loeil. Ao mesmo tempo, é sinistra. Parece que vai cair tudo em cima de nós. Os supostos restos de São Marcos, o menos inteligente dos apóstolos, foram furtados por venezianos que finalmente os enterraram sob sua catedral, que vai toda contra qualquer senso de harmonia greco-cristã, pois parece em parte um bazar oriental. Mas não ter visto essa catedral é não aproveitar a vida.
Veneza (Globo,06/01/94) - Em dez dias em Veneza, cujo anoitecer enternece a besta-fera, com seu firmamento de paleta quente (Michelangelo, florentino, é notado, se inspirou nessa paleta na Capela Sistina), não ouvi falar de Brasil, hoje tão conhecido no mundo como Djibuti (que vem de assumir a presidência do Conselho de Segurança da ONU). Da minha janela no Danieli, via San Giorgio, a um minuto de vaporeto desse hotel, que dá uma boa idéia do que era um palazzo veneziano nos tempos de glória, de que Napoleão Bonaparte foi o coveiro. À minha esquerda, a Igreja de San Zaccaria. Ando meio enferrujado em matéria de religião (acho mais divertida a astrologia) e me esqueci o que o bom Zaca fez para ser canonizado, mas o arquiteto dessa igreja, putisgrila, se não foi para o céu depois de morto, o tinha, o céu, na imaginação, quando a construiu. (...) É verdade que andando pela cidade dava, freqüentemente, com um inscrito nas paredes, hospedale etc., que tocava como campainha distante da eleição de cinco anos atrás, em que um candidato dizia "os pedar da bicicreta" etc., mas, dada a curta atenção do público hoje para eventos históricos, é provável que Hiroshima tenha já lavado da memória popular esse exemplo típico da cultura do favorito na nossa Djibuti tamanho família. Waaal, cá estou eu de volta, como dizia Sammy Davis, "back to the back of the bus", de volta ao fundo do ônibus, que era onde os negros podiam sentar antes da Revolução de Direitos Civis nos 1960. Rememoro La Vechia e a Tempestade, de Giorgione - é ele o maior pintor que já viveu? As discussões são acirradas e inconclusivas - e de ter quase me reconvertido ao catolicismo depois de ver, rever, lamber quase, a Via-Crusis de Tintoretto na Grande Escola de San Rocco. Quem dera que aqui o que me deprime fosse como os trompe Ioeils de Veneza. Mas são duros fatos. Há três anos seguidos passo cerca de dez dias na Itália, de Roma a Florença, a Veneza, e ainda estou para ouvir uma palavra desagradável que seja. Será sempre assim? Dizem que, em Milão, ou para o sul, a barra pesa. Nosso Francis Steegmuller, tradutor emérito de Flaubert e de mil franceses, mas italiano espiritual, contou que em Nápoles, a terra de Sofia Loren, os meninos vêm de lambreta e batem a carteira do probo Steegmuller que nunca recebeu 1% do dinheiro que o iletrado Grisham recebe por porqueiras. Como Millôr Fernandes, sinto vontade de silenciar alguns violões... Fui, como prometi à Missa do Galo na Basílica de São Marcos. A basílica é cafona, bizantina, meio bazar oriental e a sétima, oitava e nona maravilha do universo. Tomamos antes um café no Florian, criado em1720, em que ainda se vê gente interessante, sem blue jeans. Casquete voltou à moda das gamines francesas. A Praça de São Marcos, se rigorosamente criticada, não resiste à menor análise. Mas dane-se a análise. É incomparável, literalmente, porque nada se assemelha a ela no mundo inteiro. Dizem que os americanos bons quando morrem vão para Veneza. A missa foi um desastre. Um senhores olhando para nós e falando como se nos quisessem vender peixe e salame. Erasmo, o grande pensador católico, ao ler a brilhante tradução da Bíblia pelo seu futuro ex-amigo Lutero, escreveu cumprimentando Lutero, que praticamente inventou o alemão moderno nessa tradução (ele e Goethe são os paradigmas da língua), mas notando que a Torre de Babel separara os homens e o latim nobre da Igreja os reunira de novo num único idioma espiritual. Que o vernáculo de Lutero era de gênio, mas o de Maria Minhoca, os milhares de marias-minhocas de todos os sexos, não seria. Católicos me dizem que João XXIII e Paulo VI foram os mais bem-sucedidos agentes do demônio até hoje. Se eu fosse católico ainda, acreditaria. (...) Fui ver a igreja em que Carpaccio mostra São Jorge matando o dragão. Obra-prima. Há, claro, por trás dessas obras de arte uma propaganda de Jesus Cristo e Cia., que a Igreja estimulava para superar os esplendores do paganismo. Chega um momento em que você se cansa de ver virgens, mesmo que seja a Nossa Senhora de Alberetti. Ou que Maria Madalena (um taco) seja contrabandeada com Santa Catarina por Giovanni Bellini. Mas me pergunto, se os comunistas tivessem dado tanta latitude a seus artistas não teriam sobrevivido mais. Mas Maiakovski e Essenin se suicidaram desapontados. Outros Stalin matou ou prendeu. A Igreja, com toda a sua intolerância, tinha fé, e artistas como Rafael acreditavam nas suas incomparáveis virgens e no Menino Jesus.